Cores & TonsObjetivo GeralCustosPúblico AlvoJustificativaMetodologiaGaleria de Fotos
 
Aprendizes da garagem - Projeto Cores e Tons dá início à nova fase

 O batuque ecoa pelo hall da Aleac, das 15 às 17 horas.
- Cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz.
A letra não poderia ser mais apropriada. O grupo tem cavaco, surdo e pandeiro em perfeita sintonia com um vocal de dez meninos e uma menina, a maioria moradora do bairro da Base, a histórica e carente comunidade que se espraia entre a margem esquerda do rio Acre e as sedes dos Três Poderes, no centro de Rio Branco.
Separados por um biombo colorido, está outro grupo, este na maioria composto por meninas. Eles desenham em uma grande mesa, fazendo tamanho alarido que competem com a percussão vizinha. Os professores Kate Sento-Sé e Dircinei Souza, monitoram as turmas sem se importar com o barulho.
"Hoje eles estão até comportados", comenta Dircinei, o professor de música. "Quando o projeto começou, ninguém segurava".
Conhecido como Dick, o professor está se referindo ao projeto "Garagem Inclusiva Cores e Tons", uma iniciativa inédita da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa.  São cerca de 50 crianças e adolescentes, com idades entre 7 e 18 anos recrutadas enquanto vagavam no centro da cidade pelos funcionários da Escola do Legislativo.
A idéia do projeto partiu do próprio presidente da Aleac, Edvaldo Magalhães. "Ele notou a quantidade de crianças que passam o dia pelas ruas e se lembrou do enorme espaço ocioso na garagem da assembléia. Daí pensou em unir as partes e idealizou um projeto de inclusão social baseado nas artes", explica Dick.
A idéia se mostrou bastante eficiente para atrair e unir crianças que viviam em grupo, mas sem rumo e harmonia. "Quando cantam e tocam eles sentem o que é estar integrado. Tem garoto aqui que era da pesada e hoje só quer pegar num instrumento e tocar", comemora o professor.

Expulso do Acreano
Coladas nas paredes, as biografias e desenhos de Frida Kahlo, Picasso, Modigliani e Joan Miró, além de lições de "Introdução ao Design Releitura de Fósseis Modernos". Não para decorar, mas para informar, esclarece Kate. "Nossa meta é, no mínimo, transmitir conhecimento. Mas, é possível que alguns alunos se interessem mais e resolvam se aperfeiçoar. Neste caso, estaremos abrindo um caminho".
Kate conta que o projeto tinha apenas objetivo didático, mas acabou se envolvendo de tal maneira que criou laços afetivos. "Viramos conselheiros". No meio do grupo de Kate, de maioria feminina, tem um menino que já nasceu com nome de artista: De Leon. Morador da rua Barbosa Lima, na Base, brinco de pedra na orelha esquerda, conta que foi expulso da 5a Série do Colégio Acreano porque disse um palavrão para a professora de Matemática.
"Ela me chamou de palhaço só porque eu fiz a prova duas vezes", explica.Com 12 anos, não esconde uma ponta de tristeza quando perguntado sobre se deseja voltar ao Acreano. Quando tinha apenas três anos seu pai morreu de cirrose hepática, um mal que pode ser provocado por hepatite ou cachaça. Sua a mãe toca uma mercearia na Base.Este é o perfil da maioria dos alunos do projeto. Segundo Dick, não existe um único aluno que viva em um lar padrão. "Todos têm pais separados, alguns vivendo com mães no terceiro casamento e até uma menina de 16 anos grávida", enumera.

SEGUNDA FASE

Por conta desta carga de problemas, Kate e Dick decidiram que o projeto precisa ser mais abrangente, incluindo educação sexual. A partir deste mês de outubro, por exemplo, os alunos vestirão fardas. "As meninas ganharão um modelo que mistura saia com shorts para que não apareçam nas aulas vestindo roupas com apelo erótico, comuns no meio em que vivem", explicam.
Entre as novidades, as aulas agora serão separadas. Segunda e quarta-feira serão dias de música.Terça e quinta-feira, artes plásticas. Na sexta-feira tons e cores se misturam.